Terça-feira, 11 de agosto de 2026 Método aberto · dados abertos · julgamento por sua conta
LEIS & IMPÉRIOS
O Brasil, medido
Arbitragem · estudo · série "o apito medido" · a teoria de um leitor

A contagem de cartões empata.
O jogo, não.

Um seguidor sugeriu que um árbitro poderia pendurar um time cedo e compensar com cartões irrelevantes no fim — "no final, a quantidade seria a mesma". Cronometramos 17.083 cartões para testar. Ele acertou mais do que imaginava, e errou onde ninguém esperava.

árbitro de costas olhando o relógio de pulso no círculo central de um estádio lotado à noite, placar antigo aceso ao fundo
Ilustração de IA · Leis & Impérios
Antes de ver o dado: a contagem final de cartões dos dois times empata MAIS ou MENOS do que o puro acaso produziria?
Empata mais — e muito (z = −10). A maioria acerta o instinto. A consequência é que quase ninguém vê: se a contagem final é a coisa mais equilibrada do jogo, é exatamente nela que um desequilíbrio real não aparece.

A pergunta veio de um seguidor, no dia em que nosso levantamento de cartões circulou. Um árbitro mal-intencionado, escreveu ele, poderia "pendurar um time no primeiro tempo e dar cartões irrelevantes pro adversário no final — no fim, a quantidade seria a mesma, mas o impacto no jogo teria sido grande". A frase é uma teoria completa, com quatro afirmações testáveis. Cronometramos 17.083 cartões de nove temporadas, reconstruindo o placar no minuto exato de cada um, para testar as quatro.

Comecemos pelo fim, porque é a parte mais certa da frase: a contagem final empata mesmo — e empata demais.

21,6%
dos jogos terminam com contagem de cartões exatamente igual — e a diferença média entre os dois lados é menor do que o acaso produziria (z = −10)

Se cartão fosse sorteado ao acaso entre os dois times, a diferença média por jogo seria 1,71. A observada é 1,43. A súmula tem uma tendência mensurável ao equilíbrio — mesmo travando os pares de cartões simultâneos, que poderiam inflar o efeito, o desvio segue enorme (z entre −9,9 e −4,0). Até aqui, o comentarista está certo: no papel, tudo termina parecido.

O problema é o relógio.

Os mesmos cartões, em minutos diferentes

Dentro da mesma partida, com o mesmo árbitro, o visitante recebe o primeiro cartão amarelo 3,8 minutos antes que o mandante (p=6×10⁻¹³). Nos primeiros 15 minutos de jogo, 57,6% dos cartões vão para o visitante — quando a divisão honesta, dado o total que cada lado leva, seria 52,7%. No fim do jogo, a conta se inverte e equilibra.

O visitante é pendurado no início; o fim do jogo devolve a contagem
Fatia dos cartões que vai para o visitante, por período · linha tracejada = divisão esperada
52,7% = divisão esperada pelo total de cada lado 57,6% MINUTOS 0–15 50,0% MINUTOS 75–85
17.083 cartões · 3.366 partidas · 2015–2023 · gradiente −0,024 log-odds/10 min, robusto a ano, árbitro, clube, adversário e placar correnteLEISEIMPERIOS.COM.BR

Na moeda exata da teoria do seguidor: o visitante passa, em média, 4,35 minutos a mais por jogo "pendurado" — jogando sob ameaça do segundo amarelo (+16,8% em jogador-minuto, p=8×10⁻²²).

E o time pendurado "tira o pé"?

Tira — mas não do jeito que se imagina. O time que já tem um pendurado não comete menos faltas: comete até mais (+0,77 por jogo). O que muda é a conversão: a mesma falta rende menos cartão quando o time já está no vermelho da súmula. O árbitro tolera. No começo do jogo, essa tolerância é forte — quem está pendurado tem 39% menos chance de levar o próximo cartão. E aí vem a torção que a teoria não previu:

O árbitro poupa o pendurado no início — e cobra no fim
Chance relativa de o próximo cartão cair no time que já tem pendurado · 1,00 = sem efeito
1,00 = pendurado não muda nada 0,61 INÍCIO (<30') 0,72–0,89 JOGO TODO (faixa honesta) 1,09 FIM (>75')
Modelo condicional por partida, desfecho censurado corrigido (45,8% dos vermelhos são 2ºs amarelos) · 2015–2023LEISEIMPERIOS.COM.BR

Não é "poupar até o fim": é compensação de curto prazo, que se esgota e inverte. Depois dos 75 minutos, o pendurado passa a levar mais, não menos.

O que morreu no teste

Duas partes da teoria não sobreviveram. O "cartão irrelevante no final" existe — 5,4% dos amarelos saem depois dos 80 minutos com placar já decidido — mas é simétrico: cai igual para quem ganha e quem perde, para mandante e visitante. Não é instrumento de compensação; é ruído de fim de jogo. E o excedente de cartão do visitante está 81,7% em cartão vivo — jogo apertado, antes dos 75 — não no lixo.

Mais importante: procuramos a assinatura "um clube específico é pendurado cedo" em 216 testes por clube, e "um árbitro específico pendura" em toda a escala. Nada. O maior desvio individual é o que o acaso produz sozinho. O fenômeno é estrutural do mando — sem vilão com nome.

32,8%
do desequilíbrio de impacto entre mandante e visitante é puro timing — não aparece em nenhuma contagem final (IC95: 20% a 44%)

É a resposta completa ao seguidor: metade da sua teoria é real e mensurável — o visitante é pendurado mais cedo, passa mais minutos sob ameaça, o árbitro tolera o pendurado no começo, e a súmula termina empatada com frequência acima do acaso. A outra metade morreu nos dados: o cartão do fim é ruído simétrico, ninguém faz isso contra um clube específico, e nenhum árbitro individual carrega o padrão. A contagem empata. O jogo, não.

Padrão ≠ intenção. "Mal-intencionado" foi a hipótese do leitor — não é a nossa conclusão. O padrão medido é estrutural do mando e compatível com vieses involuntários já documentados. As varreduras por clube e por árbitro deram nulas, e estão publicadas com o mesmo destaque.

Como medimos · o porão

Amostra: 17.083 cartões em 3.366 partidas da Série A 2015–2023, com minuto de cada cartão e placar reconstruído ao vivo a partir dos minutos de gol (gols contra reatribuídos). Árbitro identificado em 100% das partidas.

Métodos: comparação pareada dentro da mesma partida (1º amarelo); regressão logística do lado punido por faixa de minuto com efeitos fixos e controle do placar corrente; modelo condicional por partida para o efeito do pendurado, corrigindo o desfecho censurado (45,8% dos vermelhos da base são segundos amarelos); nulos permutacionais com totais travados para a contagem da súmula.

Verificação: todos os números centrais foram reproduzidos do zero por um verificador independente; duas medidas do relatório original caíram na verificação e não aparecem aqui.

Baixe: resumo por clube (CSV) · scripts do estudo · hash SHA-256 publicado.

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