Quase todo brasileiro tem uma certeza sobre a inflação oficial: que ela é menor do que a de verdade. A certeza é razoável — o carrinho do mercado sobe mais rápido do que o número do noticiário — e ela tem um precedente histórico do lado, na fronteira ao sul. Então fizemos o que ninguém tinha feito com os dados brasileiros: montamos um detector de fraude, testamos primeiro num caso de fraude comprovada, e só depois apontamos para o IPCA.
Publicamos as regras do teste — hipóteses, critérios de alarme e o que contaria como prova — antes de baixar o primeiro dado, com hash SHA-256 congelado às 16h20 de 11 de agosto de 2026. Assim ninguém, nem nós, poderia mudar a régua depois de ver o resultado.
Primeiro, o cadáver: como uma fraude de verdade aparece
Em janeiro de 2007, o governo argentino interveio no INDEC, o instituto de estatística do país, e afastou a equipe que calculava o índice de preços. Pelos nove anos seguintes, o número oficial e a inflação que os argentinos viviam foram coisas diferentes. Em 2013, o INDEC declarou 10,9%; as consultorias privadas compiladas pelo Congresso mediram 28,3%. Em fevereiro daquele ano, o FMI aplicou à Argentina a primeira moção de censura da sua história por dados inacurados.
Esse caso é o nosso controle de qualidade: se um teste não consegue enxergar a fraude argentina, ele não serve para absolver ninguém. Aplicado à Argentina, o método compara o índice oficial com uma testemunha que o governo não controlava — o índice de preços da cidade de Buenos Aires, medido por outro órgão. O resultado é o que uma fraude parece:
Uma fraude sustentada não é sutil. Ela abre um buraco de dois dígitos contra qualquer medição que o governo não controle — e o buraco cresce mês após mês, porque a mentira precisa ser repetida.
Agora o Brasil: trinta anos no detector
O Brasil tem uma testemunha independente rara: a FGV, instituição privada, coleta os próprios preços e publica seu índice ao consumidor desde 1990 — com equipe própria, na rua, sem depender do IBGE. Se o IPCA fosse segurado artificialmente, a diferença entre os dois apareceria e cresceria, como na Argentina.
A linha passeia em torno do zero por três décadas. Para efeito de comparação, a mesma linha na Argentina de 2013 sairia da tela: seria dezoito vezes mais funda que o pior mês brasileiro do período recente.
Testamos ainda se o índice muda de comportamento quando muda o presidente — o que seria a assinatura de um índice político. Comparamos os 24 meses antes e os 24 meses depois de cada uma das cinco posses presidenciais desde 1996, com teste de permutação. Nenhuma das cinco deu diferença significativa (p entre 0,08 e 0,86). E o detalhe que contraria a narrativa mais popular de 2026: no governo atual, o IPCA rodou acima do índice privado — em 2025, mais 1,02 ponto, nos doze meses do ano. Quem manipula, manipula para baixo.
O teste que nós mesmos matamos
O pré-registro previa uma segunda ferramenta forense: a Lei de Benford, que detecta números fabricados por humanos pela distribuição dos primeiros dígitos. Ela funcionou no controle argentino — a série do INDEC fica fora de conformidade justamente a partir de 2007. Nos 61.699 dados de subitens do IPCA, o resultado foi conformidade tranquila nas duas eras testadas.
Só que o verificador independente derrubou o teste: simulando dados honestos por construção com distribuição diferente, o critério também acusava. Um teste que condena inocentes não pode absolver ninguém. Publicamos o Benford como descartado, e o resultado favorável ao IPCA que ele produziu não conta como prova. É a regra 3 do nosso pré-registro funcionando contra a nossa própria conveniência.
Então por que o seu carrinho parece outro?
Porque ele é outro. O IPCA é uma média de um país inteiro: mistura o aluguel de quem paga aluguel com a mensalidade escolar de quem tem filho em escola particular, o café de todo dia com a passagem aérea de quem voa. O número que sai é honesto — e é de ninguém em particular.
Essa não é uma metáfora: dá para medir. O Ipea repondera a mesma cesta do IBGE com os gastos de cada faixa de renda e publica a inflação de cada grupo. No ano da pandemia, as duas pontas do país viveram inflações diferentes com a mesma régua:
Quem gasta metade do salário com comida e gás sente um choque de alimentos com o dobro da força de quem gasta 15%. Não é erro de medição, é aritmética de cesta. E o sinal se inverte: em 2022 e 2025, foi a inflação das famílias de renda alta que ficou acima — quando o que sobe é passagem aérea, serviço e mensalidade, a conta pesa do outro lado. A média não engana sempre para o mesmo lado; ela simplesmente não é a de ninguém.
Como medimos · o porão
Pré-registro: hipóteses, critérios de alarme e regras de decisão congelados antes da coleta — SHA-256 e29c56d0…c623, 11/08/2026 16h20 UTC. Regra central: um teste só é admissível se acusa a fraude argentina E absolve o período pré-intervenção.
Dados: 164.291 registros — subitens do IPCA com pesos mensais (SIDRA 7060 e 1419, 2012–2026), séries longas do Banco Central (IPCA 433, IPC-Br/FGV 191, INPC 188, IGP-M 189, IGP-DI 190, desde 1980–1990), INDEC e IPCBA via datos.gob.ar. Dossiê com hash ca228c72….
Testes: divergência de acumulados de 12 meses com critério de alarme (z<−2 por 12 meses consecutivos na direção "oficial abaixo"); Lei de Benford e uniformidade do último dígito nos subitens; razão de suavidade contra testemunha independente; quebras estruturais nas cinco posses presidenciais por permutação (4.000 reamostragens).
Verificação: um segundo agente reproduziu tudo do zero, sem acesso aos nossos scripts, e apresentou 11 fragilidades. Três derrubaram peças do trabalho: o Benford foi descartado, a calibração formal do critério no controle argentino foi declarada não demonstrada (a sobreposição com a testemunha independente é de 17 meses) e o limite de detecção foi quantificado. Todas estão neste texto.
Baixe: pré-registro, dossiê de dados e scripts · hashes publicados. Rodou e achou diferente? A página de Erratas é sua.
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