Estudo 6 · efeito do público

A torcida apita: o experimento da pandemia

Sem público, o viés de mando no cartão por falta desliga (0,89 → 0,99, interação p=0,002). Reproduzido de forma independente por um segundo agente, do zero.

O maior viés mensurável da arbitragem brasileira não é sobre clube nenhum. É sobre a torcida.

08/08/2026 · Leis & Impérios · EXPLORATÓRIO PÓS-HOC, declarado


COMO EU DEIXEI PASSAR

O banco da CBF que uso desde o primeiro estudo tem quatro colunas que nunca abri, todas com 100% de cobertura em 3.419 partidas: horário, estádio, rodada e técnico.

Passei semanas caçando desvio por clube e nunca fiz a pergunta mais banal da literatura internacional: o mandante é apitado diferente? Rocha, Souza, Sanches & Silva (2011, Cedeplar-UFMG TD 451) já tinham achado viés de mando no Brasileirão — eu citei esse trabalho num dossiê e não repliquei o teste. Falha minha, e é a falha que muda o eixo do episódio.


1 · O MANDANTE ATACA MAIS, FALTA IGUAL E LEVA MENOS CARTÃO

Modelo Poisson, unidade = time-partida, efeito fixo de ano, clube, adversário e árbitro, erro-padrão agrupado por partida. 3.419 partidas, 2015-2023.

o que o time da CASA produz IRR p
chutes 1,308 2×10⁻¹⁶⁸
escanteios 1,314 9×10⁻⁷⁸
faltas cometidas 1,0004 0,956
cartões amarelos 0,905 2×10⁻¹³
cartões vermelhos 0,708 2×10⁻⁷
cartão POR FALTA 0,903 1×10⁻¹⁴

Leia a terceira linha junto com a última. O mandante comete exatamente o mesmo número de faltas do visitante — 1,0004, o valor mais nulo que já apareceu neste projeto — e leva 9,7% menos cartão por essa mesma falta. Não é estilo, não é posse, não é qualidade: é a mesma infração punida diferente conforme quem joga em casa.

Em números de campo: 7.478 amarelos para mandantes contra 8.262 para visitantes, diferença bruta de 784. Pelo modelo ajustado, se mandante e visitante fossem apitados igual, os mandantes teriam levado cerca de 800 cartões a mais em nove temporadas — 89 por temporada.

E o vermelho, que é a decisão que muda jogo: 0,708. O visitante leva 41% mais vermelho pela mesma partida.


2 · E AGORA O TESTE QUE FECHA A CONTA: A PANDEMIA

Se o mecanismo é pressão de torcida, o efeito tem que sumir quando a torcida some. O Brasil rodou um experimento natural de 665 partidas com portões fechados.

Janela declarada antes de rodar: 13/03/2020 a 31/10/2021 (o retorno de público foi escalonado por estado — é aproximação, e fica dito). Na prática, as partidas dessa janela no banco vão de 08/08/2020 a 31/10/2021.

COM público (2.754 jogos) SEM público (665 jogos) p da interação
cartão por falta 0,886 0,986 0,0021
cartões (nível) 0,882 1,020 <0,0001
faltas 0,993 1,031 0,018
vermelhos 0,659 0,961 0,023
chutes 1,330 1,216 0,0002

Testado separadamente: - Com público: IRR 0,886 · p = 9,7×10⁻¹⁷ - Sem público: IRR 0,985 · p = 0,63 — indistinguível de zero.

E dá para ler sem modelo nenhum, na conta bruta de cartões dividida por faltas:

mandante visitante razão
com público 0,1492 0,1681 0,888
sem público 0,1400 0,1415 0,989

O viés de mando no cartão desliga quando o estádio esvazia e volta quando a torcida volta. Ano a ano, a mesma coisa: 0,863 em 2015 · 0,871 em 2016 · 0,862 em 2017 · 0,926 em 2018 · 0,903 em 2019 · 1,009 em 2020 · 0,971 em 2021 · 0,845 em 2022 · 0,892 em 2023.

O chute mantém vantagem de mando mesmo sem público (1,22) — o time de casa continua jogando melhor em casa. O que evapora é a parte que depende do apito.


3 · É DE ALGUNS ÁRBITROS OU DE TODOS?

Esta é a pergunta que você faz desde o começo. Estimei o efeito de mando árbitro por árbitro, entre os 15 com 60 ou mais jogos identificados no banco:

Não é um grupo. É o corpo inteiro, no mesmo sentido, com intensidade parecida. Um viés que aparece em quase todo mundo, que responde à presença de torcida e que não responde à visibilidade do jogo tem uma leitura muito mais simples do que qualquer outra: é percepção sob pressão, não decisão deliberada.


4 · O QUE NÃO EXPLICA

Não é atenção. Testei se o desvio muda quando o jogo é o único no horário — proxy de atenção do país, com 68,9% dos jogos sozinhos no seu horário. Interação nula: p = 0,60 na razão cartão/falta e p = 0,93 no nível. Por faixa de horário também não há padrão: 0,890 à tarde, 0,909 no início da noite, 0,916 à noite.

Ou seja: o viés não se esconde. Ele aparece igual no jogo que o país inteiro está vendo e no jogo de domingo de manhã. Isso é forte contra qualquer leitura de ocultação deliberada.


5 · O QUE ISSO FAZ COM O QUE JÁ ESTAVA MEDIDO

Não derruba nada. Recoloca tudo numa escala.

O viés de mando é 0,89 e vale para todas as 3.419 partidas. Os desvios por clube que medi antes (Vasco 0,75 em 2024-26, Corinthians 1,37 na direção oposta) são maiores em magnitude, mas valem para um clube de cada vez. O gradiente de dominância (+14% e +18%) que achei no exercício dos jogos apertados é provavelmente a mesma família de fenômeno: o apito acompanha quem está por cima, e a torcida é uma das formas de estar por cima.

A leitura honesta que sai daqui e que eu não tinha: existe um viés de arbitragem grande, sistemático, replicado em nove temporadas, presente em quase todos os árbitros — e a causa mais provável dele é a torcida, não a instituição. O que sobra para explicar por clube é o resíduo em cima disso, e é menor do que o número bruto sugeria.


LIMITAÇÕES

  1. Exploratório. Nenhuma destas hipóteses estava congelada antes da coleta. O que sobreviver vira Estudo 7 pré-registrado — e este é o caso mais forte de pré-registro que o projeto já teve, porque a predição é direcional e checável em dado novo.
  2. A janela de portões fechados não é um experimento controlado. No mesmo período houve calendário comprimido, ausência de viagem de torcida, escalas alteradas e amadurecimento do VAR. O que sustenta a leitura é a especificidade: as faltas praticamente não mudam e os cartões mudam.
  3. O retorno de público foi escalonado por estado. A janela é aproximada; partidas com público parcial estão classificadas como "sem público", o que atenua o efeito medido — o viés real com público cheio é provavelmente maior que 0,886.
  4. Árbitro identificado em 77% das linhas; os 23% restantes entram como categoria "DESCONHECIDO".
  5. Só 15 árbitros têm 60+ jogos no recorte — a análise por árbitro é indicativa, não conclusiva.
  6. Nada aqui prova favorecimento, combinação ou intenção de ninguém. PADRÃO ≠ INTENÇÃO.

O QUE ISTO DÁ AO CANAL

Um vídeo com um número que qualquer torcedor entende em cinco segundos — o time de casa comete a mesma falta e leva menos cartão — e uma prova que ninguém consegue contestar de improviso: quando a torcida sumiu, o viés sumiu junto.

E resolve o problema de vilão sem inventar vilão. O gancho: "não é o árbitro que rouba. É a arquibancada que apita." O contraponto obrigatório entra logo depois: isso não isenta a CBF — mede-se há décadas no mundo inteiro, existe treinamento para reduzir, e a entidade nunca publicou um número sequer sobre isso.

ARQUIVOS

visibilidade.py · vis3.py · vis4.py · vis5.py · painel_visibilidade.csv (6.838 linhas com horário, estádio, rodada, técnico, árbitro e o marcador de portões fechados) · E6_arbitros_mando.csv