Exercício exploratório

Placares apertados: empates e um gol de diferença

O que aparece quando se isola o jogo decidido no detalhe — e a armadilha estatística (colisor) de condicionar no placar final.

Série A, 2015-2026 · empates e jogos de um gol de diferença

Análise EXPLORATÓRIA pós-hoc. Declaração escrita antes de rodar: 00_DECLARACAO_EXPLORATORIA_APERTADOS.md. Nenhum p-valor daqui confirma nada. O que sobreviver vira hipótese de um Estudo 6 pré-registrado.


RESUMO EM SEIS LINHAS

  1. O corte não achou o que se esperava dele. A hipótese natural era "o desvio aparece no jogo decidido por um gol". Não aparece. Em 19 clubes da era atual e 29 da era anterior, nenhum teste de interação (apertado ≠ folgado) sobrevive à correção. O desvio de cada clube é o mesmo no 1x1 e no 4x0.
  2. O corte pelo placar final quase não é um corte. 87,7% de todos os minutos do Brasileirão 2015-23 são jogados com o placar empatado ou com um gol de diferença. "Jogo apertado" não é um subconjunto especial — é o campeonato.
  3. Mas o exercício produziu um achado maior, e ele não é sobre clube nenhum: é um gradiente. A mesma falta vira cartão com frequência diferente conforme quem está dominando o jogo. +14,1% na era 2015-23, +17,9% na era 2024-26 — duas janelas, duas fontes de dados independentes, mesmo sinal.
  4. Os pênaltis dizem não. 672 pênaltis convertidos em nove anos, a decisão mais direta que um árbitro toma: nenhum clube se afasta do acaso. Menor p = 0,089. Zero.
  5. O placebo falhou — e isso é informação. Escanteios e chutes do adversário mostram mais estrutura por clube (14/29 e 13/29 significativos) do que os cartões (8/29). Ou seja: "o adversário produz números diferentes contra o clube X" é normal. Sozinho, não é evidência de arbitragem.
  6. O que sobra depois de tirar o gradiente é pequeno. Nenhum clube passa de ~2 desvios-padrão da linha. O Vasco continua sendo a ponta (−1,88σ em 2024-26, −1,40σ em 2015-23), mas a parte inexplicada é menor do que o número bruto sugere.

PARTE 1 · O CORTE PELO PLACAR FINAL

1.1 Quanto do campeonato é apertado

janela partidas apertadas (dif ≤ 1) empates 1 gol
2015-2023 3.419 60,5% 25,0% 35,5%
2024-2026 965 68,5% 26,8% 41,7%

Cartões por time por jogo, cortando pelo placar final: | janela | jogo folgado | jogo apertado | var. | |---|---|---|---| | 2015-23 | 2,057 | 2,406 | +16,9% | | 2024-26 | 2,363 | 2,637 | +11,6% |

Parece que o jogo apertado é mais cartão. É armadilha — ver 1.2.

1.2 A armadilha do placar final (e por que ela inverte o sinal)

O placar final é posterior aos cartões. Cortar por ele é cortar por um efeito, não por uma causa — um colisor. Refiz o mesmo cálculo pelo estado do jogo no minuto exato de cada cartão, reconstruindo o placar corrente a partir dos 9.861 gols com minuto, e com exposição no denominador (quantos minutos cada time passou em cada estado):

medida por 90 min em estado APERTADO por 90 min em estado FOLGADO
cartões amarelos 2,035 2,216 · −8,2%
cartões vermelhos 0,0842 0,1181 · −28,7%

O sinal inverte. Pelo placar final, jogo apertado tem +17% de cartão; pelo estado real do jogo no minuto do cartão, tem −8%. O que existia era seleção: jogos que viram goleada acumulam cartão depois que a goleada aconteceu, e o placar final os classifica como "folgados" carregando esses cartões junto.

Anotação de método para o canal: essa inversão é a demonstração mais limpa que já produzimos de que um recorte inocente pode fabricar um resultado. Serve de material didático melhor que qualquer tabela.


PARTE 2 · O TESTE QUE O EXERCÍCIO PEDIA — E DEU NULO

Pergunta: o desvio de cada clube é maior quando o jogo está apertado? Modelo com efeito fixo de árbitro, clube, ano e mando; erro-padrão agrupado por partida; termo de interação clube × apertado.

2024-2026, 19 clubes, duas especificações (nível e cartão-por-falta): - FDR 5% na interação, nível: nenhum clube - FDR 5% na interação, razão: nenhum clube

2015-2023, diferencial pareado com bootstrap (21 clubes): 1 sobrevivente de 21 — Coritiba, +0,585 cartão (p=0,0004), na direção contrária à hipótese (o Coritiba tem mais desvio no jogo folgado).

Conclusão: o desvio de arbitragem que medimos não se concentra no momento decisivo. Está distribuído. Isso é relevante para a tese: um padrão que aparece igual no jogo morto e no jogo vivo combina mal com qualquer história de direcionamento de resultado, e combina melhor com um viés de percepção estável.


PARTE 3 · O ACHADO QUE APARECEU NO CAMINHO — O GRADIENTE

Testei a decomposição correta: o adversário leva menos cartão porque falta menos (estilo) ou porque a mesma falta é apitada diferente (apito)? A métrica que separa as duas é cartão por falta.

E aí apareceu o padrão que não estava sendo procurado: a razão cartão/falta do adversário acompanha quem domina o jogo.

2015-2023 · jogos apertados cartão/falta do adversário (IRR)
quartil dos clubes mais dominados (Avaí, América-MG, Sport, Atlético-GO, Figueirense, Goiás, Chapecoense, Coritiba) 0,931
quartil dos clubes mais dominantes (Flamengo, Cruzeiro, São Paulo, Atlético-MG, Internacional, Palmeiras, Athletico-PR, Grêmio) 1,063
diferença +14,1%
2024-2026 · jogos apertados cartão/falta do adversário (IRR)
quartil de menor saldo (Grêmio, Juventude, Santos, Vasco, Vitória) 0,905
quartil de maior saldo (Botafogo, Cruzeiro, Flamengo, Mirassol, Palmeiras) 1,067
diferença +17,9%

Correlações diretas: - 2015-23: Spearman(razão, escanteios do adversário) = −0,621 (p=0,0003); com chutes, −0,456 (p=0,013). O gradiente explica 35,5% da variação entre clubes. - 2024-26: Spearman(razão, saldo de gols por jogo) = +0,504 (p=0,028). Explica 19,2%.

Em português: quando um time ataca um clube que está sendo dominado, a falta dele é punida com menos frequência do que a mesma falta cometida contra um clube que está por cima. Duas janelas, duas bases de dados que não conversam entre si, o mesmo sinal e a mesma direção.

PADRÃO ≠ INTENÇÃO — causa não identificada. Explicações inocentes existem e são fortes: falta de time que está atacando tem contexto diferente de falta de time que está se defendendo; a falta tática (a que interrompe contra-ataque) é mais comum e mais óbvia contra quem domina; e o árbitro julga a situação, não o escudo. Nada disso está medido aqui. O que está medido é que o gradiente existe e é grande.

3.1 O que sobra quando o gradiente sai

Rodei o resíduo: quanto cada clube se afasta da linha que a própria dominância prevê.

2015-2023 (29 clubes), resíduo em desvios-padrão: Avaí −2,45 · Vasco −1,40 · Cuiabá −1,37 · América-MG −1,33 · Sport −1,15 · Flamengo −1,06 … … Grêmio +0,96 · Coritiba +1,30 · Ponte Preta +1,50 · Ceará +1,79

2024-2026 (19 clubes): Vasco −1,88 · Flamengo −1,53 · Fortaleza −1,02 … Bahia +1,44 · Corinthians +1,71 · Botafogo +1,74

Um único clube passa de 2σ em 48 testes. Isso é o que o acaso entrega. A leitura honesta: depois de descontar o gradiente, os desvios por clube ficam dentro do esperado. O gradiente é o achado; o clube individual, nesta análise, não é.


PARTE 4 · OS PÊNALTIS — O NULO MAIS FORTE DA AUDITORIA ATÉ AGORA

672 pênaltis convertidos, 2015-2023, com minuto. 86,5% deles com o jogo apertado no momento da marcação. Taxa-base de pênaltis a favor entre todos os clubes: 0,501 — ou seja, o campeonato inteiro é uma moeda honesta.

clube jogos a favor contra saldo/100 jogos p (binomial)
Cuiabá 110 13 7 +5,45 0,263
Atlético-MG 327 47 31 +4,89 0,089
Botafogo-RJ 260 26 17 +3,46 0,222
Cruzeiro 221 15 24 −4,07 0,153
Figueirense 76 7 12 −6,58 0,262

Nenhum clube se separa do acaso. Nem antes de corrigir para múltiplos testes. O extremo (Atlético-MG, p=0,089) desaparece com qualquer correção. Restrito só ao estado apertado, idem.

Este é um resultado que vale contra a tese, e é por isso que está aqui em cima e não numa nota de rodapé. A decisão mais visível, mais discutida e mais decisiva da arbitragem brasileira — o pênalti — não mostra preferência de clube em nove anos. Limitação declarada: a base só registra pênalti convertido. Perdidos e defendidos não aparecem (≈20-25% do total). Isso adiciona ruído; não cria nem apaga um viés de clube.


PARTE 5 · O QUE CONTINUA DE PÉ

O achado da era atual não caiu com este exercício — ele apenas ficou mais bem localizado.

Vasco, 2024-2026, cartão do adversário, com efeito fixo de árbitro:

recorte IRR p n
tudo 0,760 0,0000 91
só empates 0,762 0,111 19
só 1 gol 0,735 0,008 37
apertado (≤1) 0,751 0,002 56
folgado (≥2) 0,795 0,050 35
goleada (≥3) 0,591 0,034 15
cartão por falta, apertado 0,776 0,004 56

Deixa-uma-temporada-de-fora: IRR entre 0,718 e 0,783, significativo em 3/3 reamostras. Não é uma temporada puxando. E — o ponto do exercício — não é o jogo apertado: o efeito é igual, ou maior, na goleada.

Corinthians, mesmo período, direção oposta: IRR 1,366 no total, 1,398 no apertado, 1,199 na razão cartão/falta (p=0,0012), estável em 3/3 reamostras. Bahia 1,218 (p=0,002) e Botafogo 1,286 na razão (p=0,0002) também sobrevivem ao FDR.

2015-2023, com efeito fixo de árbitro e controle de estilo (chutes, escanteios, faltas), estado apertado ao vivo: sobrevivem ao FDR 5% apenas Grêmio (IRR 1,120, p=0,001) e América-MG (0,829, p=0,003). Ambos estáveis em 9/9 reamostras deixa-um-ano-de-fora. Palmeiras (1,095, p=0,011) cai na correção quando o estilo entra.


LIMITAÇÕES

  1. Tudo aqui é exploratório. Nenhuma destas hipóteses estava congelada antes da coleta.
  2. Colisor: cortar pelo placar final condiciona num resultado que a arbitragem pode ter causado. Mitigado com o corte por estado ao vivo em 2015-23; não mitigado em 2024-26, onde a base não traz minuto de cartão.
  3. O placebo falhou como placebo. Escanteios e chutes não são "coisas que a arbitragem não distribui e por isso não deveriam variar" — eles variam mais que os cartões. A consequência é que o nível bruto de cartão por adversário não serve de evidência sozinho; só a razão cartão/falta com efeito fixo de árbitro serve. Isso obriga a rever para baixo qualquer leitura que tenhamos feito de diferenças de nível.
  4. Cobertura: 2015-23 tem árbitro identificado em 77% das linhas; partidas sem árbitro entram com categoria "DESCONHECIDO", o que enfraquece o efeito fixo. Gols com minuto existem em 3.034 das 3.419 partidas.
  5. Pênaltis só convertidos.
  6. UF, dominância e saldo de gols são proxies grosseiros. Chamados assim.
  7. Nada aqui prova favorecimento ou intenção de ninguém.

O QUE ISTO MUDA NA TESE DO EPISÓDIO

O roteiro atual aponta para "um clube é tratado sistematicamente diferente". Este exercício sugere um enquadramento mais forte e mais defensável:

O apito brasileiro tem um gradiente. Ele acompanha quem está por cima. Não é um clube. É uma inclinação — e ela reaparece em duas janelas, com dados coletados de fontes diferentes, com 14% e 18% de amplitude. Os clubes que ficam nas pontas mudam de era para era. A inclinação não muda.

E a pergunta do episódio deixa de ser "quem é o favorecido" — que a estatística não sustenta com segurança — e passa a ser "por que a mesma falta vale coisas diferentes dependendo de quem está ganhando o jogo, e por que ninguém na CBF mede isso?" Essa segunda pergunta a instituição tem de responder, e ela não depende de apontar vilão nenhum.

Contraponto obrigatório no ar: o pênalti — a decisão mais decisiva de todas — não mostra preferência de clube em nove anos. Isso entra no vídeo, com a mesma ênfase.


ARQUIVOS

apertados.py · apertados_aovivo.py · apertados_modelo.py · apertados_era2.py · apertados_robustez.py · apertados_decomp.py APERTADOS_VARREDURA.csv · APERTADOS_DIFERENCIAL.csv · APERTADOS_AOVIVO_VARREDURA.csv · APERTADOS_MODELO.csv APERTADOS_ERA2.csv · APERTADOS_DECOMPOSICAO.csv · APERTADOS_PENALTIS.csv · APERTADOS_PLACEBO.csv APERTADOS_CARTOES_ESTADO.csv (14.499 cartões com minuto e estado do jogo) · APERTADOS_PAINEL_AOVIVO.csv